Aurora Boulevard


Shalimar

 

 

 

" Levem-me a remos pelo Paraíso em um rio de Inferno:

fino fantasma, é noite.

O remo é um coração; ele quebra as ondas de porcelana...

... Sou tudo que você perdeu. Você não vai me perdoar.

A lembrança de mim atrapalhando sempre a sua história."

                       



Escrito por Adriana Vaz às 21h05
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Porque as Docas são rasas tanto quanto minhas pálpebras,

entre as sete colinas te perco.

 

Porque ‘de verdade’, nada é para sempre.

 

miss soledad



Escrito por Adriana Vaz às 15h02
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Quando ainda sorrir os seus dentes brancos, as marcas em mim da sua mordida amarela, hoje é o ultimo dia quente do calendário, sei que eu e você vamos arder em todos os outros dias.

O monstro amedrontador da segunda-feira se levanta! Tédio, civilização e ócio cravam as costas no colchão. 

Na vizinhança um passarinho repete um tipo de canto esquisito, bate as asas contra as grades da sua gaiola, se cala, se conforma, coça a cabeça, fica quieto e começa o dia.   

 



Escrito por Adriana Vaz às 20h51
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MORFINA, um sintoma

 

 

Quando me virei ainda senti o cheiro do suor que já havia secado no travesseiro.  As costas arranhadas por causa da morfina, as pupilas desaparecidas na imensidão azul dos olhos, um estado de calma e silêncio depois de colocar o ultimo picolé de limão para fora -lembrei de Tristessa. Lembrei de Tristessa com sua pele morena, índia, seus olhos negros, profundos como uma miragem.

 

Ainda estava lá as marcas vermelhas na pele branca por causa da morfina, eu lembrei novamente de Tristessa, com seu batom vermelho cor de sangue corando os seus lábios.  

 

e no calor da tarde quente, nossos trópicos corações derretidos... eu vi ele tremer de frio, congelar inteiro e desta vez não era por causa da morfina e ai lembrei de Tristessa:

 “mas as moitas e as rochas não eram reais e a beleza das coisas deve estar no fato de terminarem”.  

 

hoje dia de nascimento de Jack  *Tristessa e trecho final também é deste livro de Jack Kerouac

L&PM.

  



Escrito por Adriana Vaz às 11h38
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CONTRUÇÃO (primeiros ruídos)

 

 

 

 

 

Desde que cheguei aqui não havia percebido que em meio a tanto barulho pode-se ouvir alguns sons simples. A batida descompassada de um coração aflito, um choro sem lágrimas, por exemplo.

Já faz uns dias que a construção começou, deve ser uma obra demorada, eu acho – pois até preencher todo vazio do terreno! Deve demorar bastante tempo, pensei nisso logo que começaram a furar o primeiro buraco. Uns dias sem dormir outros remexendo entre sonhos e virgilia. Eu sabia que tudo é uma questão de acostumar o ouvido, assim como o barulho acalentador de um ventilador soprando durante um dia quente. O silêncio tem sido um bem cada dia mais raro de se apreciar. Já não ouço os pequenos ruídos dentro de casa e também já faz tempo que não tenho ouvido musicas sem estar ocupada com outra coisa.  Não tenho cantarolado no chuveiro - Adorava testar meu espanhol ruim acompanhando as canções de minha querida La Lupe enquanto a água caia na cabeça.

Hoje a construção parou, senti falta de alguma máquina se movimentando, a sirene também não alertou a siesta dos operários, tudo está calmo, não é domingo, nem feriado, a gente se acostuma com a rotina de todas as coisas.



Escrito por Adriana Vaz às 17h52
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Às vezes as brisas no verão pesam tanto!

As bolas de ar quente

O suor gelado,

O terral da margem esquerda do lado de lá do Rio.

As correntezas atrapalhadas – às vezes das águas, outras vezes do transito, outras vezes das pessoas.

- Nem sempre há um ‘vagar sob o mundo’ apenas com pedrinhas para chutar, ou para não dá tanta importância as topadas.

O verão chegou e algumas chuvas molham o asfalto quente, aquietam a poeira, solta um vapor sufocante no ar.

Agora, fecho a página 131 do romance que acabo de ler, sigo rumo à rua como se estivesse sido atraída para um palácio de mil salões!

Parto para rua mas antes de sair rabisco uma listinha de coisas que nem penso em fazer.

Vou embora porta fora caminhando com o peso de um elefante branco

levando no coração o eco dos mil salões!

Vou calçada em sandálias de chumbo.

Vou embora porta a fora, caio bem no meio do verão quente, no meio do carnaval cansado, em plena praça...

Vou assim até estar mais uma vez esfregando, enlameando o piso ao pé da porta de casa, de volta a vida comum.



Escrito por Adriana Vaz às 21h11
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 Lembranças alagadas dos sonhos infantis.

 

Quarto lilás, bonecas de papel, um barquinho rumo ao dilúvio no pobre coraçãozinho

 -Travessia da meninice para as ondas do mar vermelho.

As molecagens nas várzeas e alagados.

Os amigos da rua, pés descalço, pulinhos do asfalto quente para a sombra.  

Peixinhos dourado engarrafados, uma declaração de amor, um primeiro beijo.  

Brincadeiras de menina foram até a esquina, atravessaram a rua, a enchente veio, fez boiar os brinquedos, comecei a pisar no salto alto de um tamanquinho, e nas poças turvas da minha mocidade.

 

 

 



Escrito por Adriana Vaz às 23h39
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Pequeno fragmento em boa hora

 

 

 

Um amigo disse ontem que anda ‘engarrafando nuvens’. Achei isso  muito bacana! Gostei tanto que encomendei mais de uma garrafa. Pensei em dar uns goles, opa, na verdade pretendo me encharcar disto!

Um engarrafador de nuvens isso parece uma grande besteira, mas não é. Ontem tive a idéia de engarrafar as palavras e prendê-las e não dizer mais nada! Isto é bem mais difícil do que engarrafar nuvens. É bom contar com uma atividade deste tipo, vou pensar em um projeto ainda mais audacioso - o de consegui engarrafar tempestades...

 

Miss Soledad



Escrito por Adriana Vaz às 13h46
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O Paraíso

 

 

Tudo está igual como todos os dias. A fumaça convidativa do meu excitante negro, quente e denso, meu jeito de acordar e esticar o braço e alcançar qualquer coisa para ler ainda em estado sonolento. Nesta manhã me vi novamente em Roma, não em qualquer lugar de Roma, mas em um quarto em Roma, nas três páginas de uma estória de Moravia. - Deixo sempre a mão este livro, uma série de estórias contadas na primeira pessoa, todas por mulheres, diante de um espelho, ou de um abismo. Fechei a segunda estória olhei para o lado, tudo ainda em silêncio, ele não se mexia, apenas alguns suspiros de sono profundo e eu em minha respiração excitada. De volta a mais uma estória do livro ‘O Paraíso’. Movi as pernas por baixo do lençol - ao meu lado apenas mais um suspiro e mais um balão de sonhos. Estalei de propósito o elástico ‘azul cor do céu’ da minha calcinha, quase dizendo – Já é a aurora, acorda amor! Olhei novamente para o lado, nada se mexia, tomei mais dois goles de café e continuava me sentindo em mais uma estória romana. Ainda a leitura, o café quente, o silêncio. Uma poça de suor gelado descolando um braço do outro - uma poça que se abria e se alargava como as margens do rio do nosso Paraíso. Caminhava tudo bem, se não fosse pelo detalhe - as pedras rolam para dentro do sapato mesmo quando não estão furados, os balões de sonhos desaparecem quando o despertador toca.

 

Miss Soledad

 

 

 

*32 estória de Alberto Moravia. Contadas por mulheres na primeira pessoa, mergulhos sublimes a natureza feminina, mas tão simples como o cotidiano de ir a manicure.  



Escrito por Adriana Vaz às 19h27
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Com samba, cachaça e alegria. Só agradeço este samba que você me fez!

 

 

 

AMANHÃ SEXTA-FEIRA

  

Mãos apertadas, sóbrias de desejo.

Conduzindo corpos chapados

No ritmo do meu cavaquinho embriagado

Em acordes ‘diminutos’

Que toca, queira ou não queira mas

- com ela todo dia é sexta-feira.

 

Tenho dois sambas,

Um eu canto quando meu cavaco chora

Outro me faz sorrir num quarto lisérgico na Aurora

Sem hora...( a qualquer hora)

 

Nossa geladeira só cachaça e tira-gosto

 E alegria tinge nosso rosto.

A vida fica sem ladeira

A gente sobe, voa de outra maneira.

- Com ela todo dia é sexta-feira.

 

Êxtase duplo

Amputando mentiras

 Nossa cumplicidade sempre companheira...

 - Com ela todo dia é sexta-feira.

 

Nelson Brederode (meu marido, meu tesouro, meu Amor!)



Escrito por Adriana Vaz às 17h35
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 Divórcio do céu e inferno sem William Blake

 

 

Estou te devolvendo os grilhões e todas as outras coisas em troca, volto à dançar com meus defeitos. Me amparaste no meio da pista, entre dados e precipícios, e eu volto a eles. Lances de sorte, apostas perdidas: Deus não brinca em serviço! A nossa fortuna de todos os dias guardo no tempo perdido, sem passado, sem presente – na memória, ‘estojo da eternidade’.

Devolvo a nossa babel, nosso ruído, o pranto seco, a comida crua, as roupas do varal, as tempestades no copo de cachaça. Deus está escondido em algum lugar, nem ele brinca mais! Nem ele nos deseja boa sorte, sorte só se for eu, walt whitman!

 

Na placa está escrito ‘pode andar na grama, nas emboscadas do destino, nas fraudes das paixões, nas libélulas voadoras, nas pupilas da visão perdida’. Eterno não somos nós nem é o tempo, é a memória que perdi. Nem lembro do instante que caiu a folha, um fruto ou qualquer coisa próxima aos últimos instantes - esqueci tudo, meu caro! Porque paraísos e infernos ficam logo ali – é só escolher. Tabuleiros místicos estão aceitando encomendas para outros escambos da vida.  



Escrito por Adriana Vaz às 20h29
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Algumas saudações para ficar de molho.

 

 

 

“A embriaguez lança véu sobre a vida real, extingue o conhecimento das pernas e das mágoas, permite largar o fardo do pensamento. Compreende-se então como grandes génios puderam servir-se dele e porquê o povo se lhe entrega.”

 

 

*  Tratado dos Excitantes Modernos, Balzac

 



Escrito por Adriana Vaz às 10h24
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Efeitos Corrosivos (n.2)

 

 

 

 

 

... e antes da última espuma branca lamber os pés uma nova onda surgi no horizonte.

Mar esmeralda, calamares dançantes, pontos luminosos no céu, pastilhas coloridas descolam retinas para as noites de sempre.

Bichinhos miúdos surgem das brechas na areia da praia, comem a morte, beliscam os dedos, caminham para o lado do passado enquanto isso, outras ondas espumam loucamente.

E outras lambem nomes de amores perdidos,

Mais outras desmancham desenhos matinais feitos com riscos da inocência, e da compreensão sobre o fim de todas as coisas.

Bóias pretas como miragem embarcam passantes mar a dentro

Bóias convidam à passeios onde não há botes salva-vidas -

 mas à salvo de possíveis afogamentos.

Pulinhos agonizantes sob a sombra da água preguiçosa faz cócegas nos pés

Sonhos dormidos em alto mar carregados de maresia como 'efeito corrosivo'. 

Ao acordar outra miragem distante

agora de volta ao simples passeio na praia.

 



Escrito por Adriana Vaz às 14h16
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Efeitos Corrosivos (n. 1)

 

 

Pelo menos encoste a porta.

Antes de sair fique mais uns instantes e escute bater as janelas

pode soar tão estridente quanto os ruídos da melancolia.

 Saia de perto!

Só não esqueça de sacudir às chaves da porta de entrada.

Arraste com cuidado minha alma para fora

Se não for pedir muito, escute o sereno chegar

ou espere alguma flor da madrugada abrir para vida

 antes de me deixar desmanchar no jardim.

 

Delicados pingos de orvalhos fazem tremer tuas mãos quando me escoas dos teus abraços.

Agora

cataventos laminados nos sopram para longe

de como éramos antes.

Dobro a esquina dos becos das nossas veias e alguma coisa em nós ainda respira.

– Deixei estragar o meu ‘tylenol-cioran’ para efeitos corrosivos.

 

 



Escrito por Adriana Vaz às 18h39
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Escrito por Adriana Vaz às 00h54
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