Quando ainda sorrir os seus dentes brancos, as marcas em mim da sua mordida amarela, hoje é o ultimo dia quente do calendário, sei que eu e você vamos arder em todos os outros dias.
O monstro amedrontador da segunda-feira se levanta! Tédio, civilização e ócio cravam as costas no colchão.
Na vizinhança um passarinho engaiolado repete seu canto muitas vezes. Bate as asas contra as grades da sua moradia, se cala, se conforma, coça a cabeça, fica quieto e começa o dia.
Quando me virei ainda senti o cheiro do suor que já havia secado no travesseiro. As costas arranhadas por causa da morfina, as pupilas desaparecidas na imensidão azul dos olhos, um estado de calma e silêncio depois de colocar o ultimo picolé de limão para fora -lembrei de Tristessa. Lembrei de Tristessa com sua pele morena, índia, seus olhos negros, profundos como uma miragem.
Ainda estava lá as marcas vermelhas na pele branca por causa da morfina, eu lembrei novamente de Tristessa, com seu batom vermelho cor de sangue corando os seus lábios.
e no calor da tarde quente, nossos trópicos corações derretidos... eu vi ele tremer de frio, congelar inteiro e desta vez não era por causa da morfina e ai lembrei de Tristessa:
“mas as moitas e as rochas não eram reais e a beleza das coisas deve estar no fato de terminarem”.
hoje dia de nascimento de Jack *Tristessa e trecho final também é deste livro de Jack Kerouac
Desde que cheguei aqui não havia percebido que em meio a tanto barulho pode-se ouvir alguns sons simples. A batida descompassada de um coração aflito, um choro sem lágrimas, por exemplo.
Já faz uns dias que a construção começou, deve ser uma obra demorada, eu acho – pois até preencher todo vazio do terreno! Deve demorar bastante tempo, pensei nisso logo que começaram a furar o primeiro buraco. Uns dias sem dormir outros remexendo entre sonhos e virgilia. Eu sabia que tudo é uma questão de acostumar o ouvido, assim como o barulho acalentador de um ventilador soprando durante um dia quente. O silêncio tem sido um bem cada dia mais raro de se apreciar. Já não ouço os pequenos ruídos dentro de casa e também já faz tempo que não tenho ouvido musicas sem estar ocupada com outra coisa.Não tenho cantarolado no chuveiro - Adorava testar meu espanhol ruim acompanhando as canções de minha querida La Lupe enquanto a água caia na cabeça.
Hoje a construção parou, senti falta de alguma máquina se movimentando, a sirene também não alertou a siesta dos operários, tudo está calmo, não é domingo, nem feriado, a gente se acostuma com a rotina de todas as coisas.
Quarto lilás, bonecas de papel, um barquinho rumo ao dilúvio no pobre coraçãozinho
-Travessia da meninice para as ondas do mar vermelho.
As molecagens nas várzeas e alagados.
Os amigos da rua, pés descalço, pulinhos do asfalto quente para a sombra.
Peixinhos dourado engarrafados, uma declaração de amor, um primeiro beijo.
Brincadeiras de menina foram até a esquina, atravessaram a rua, a enchente veio, fez boiar os brinquedos, comecei a pisar no salto alto de um tamanquinho, e nas poças turvas da minha mocidade.
Um amigo disse ontem que anda ‘engarrafando nuvens’. Achei isso muito bacana! Gostei tanto que encomendei mais de uma garrafa. Pensei em dar uns goles, opa, na verdade pretendo me encharcar disto!
Um engarrafador de nuvens isso parece uma grande besteira, mas não é. Ontem tive a idéia de engarrafar as palavras e prendê-las e não dizer mais nada! Isto é bem mais difícil do que engarrafar nuvens. É bom contar com uma atividade deste tipo, vou pensar em um projeto ainda mais audacioso - o de consegui engarrafar tempestades...
Tudo está igual como todos os dias. A fumaça convidativa do meu excitante negro, quente e denso, meu jeito de acordar e esticar o braço e alcançar qualquer coisa para ler ainda em estado sonolento. Nesta manhã me vi novamente em Roma, não em qualquer lugar de Roma, mas em um quarto em Roma, nas três páginas de uma estória de Moravia. - Deixo sempre a mão este livro, uma série de estórias contadas na primeira pessoa, todas por mulheres, diante de um espelho, ou de um abismo. Fechei a segunda estória olhei para o lado, tudo ainda em silêncio, ele não se mexia, apenas alguns suspiros de sono profundo e eu em minha respiração excitada. De volta a mais uma estória do livro ‘O Paraíso’. Movi as pernas por baixo do lençol - ao meu lado apenas mais um suspiro e mais um balão de sonhos. Estalei de propósito o elástico ‘azul cor do céu’ da minha calcinha, quase dizendo – Já é a aurora, acorda amor! Olhei novamente para o lado, nada se mexia, tomei mais dois goles de café e continuava me sentindo em mais uma estória romana. Ainda a leitura, o café quente, o silêncio. Uma poça de suor gelado descolando um braço do outro - uma poça que se abria e se alargava como as margens do rio do nosso Paraíso. Caminhava tudo bem, se não fosse pelo detalhe - as pedras rolam para dentro do sapato mesmo quando não estão furados, os balões de sonhos desaparecem quando o despertador toca.
Miss Soledad
*32 estória de Alberto Moravia. Contadas por mulheres na primeira pessoa, mergulhos sublimes a natureza feminina, mas tão simples como o cotidiano de ir a manicure.
Estou te devolvendo os grilhões e todas as outras coisas em troca, volto à dançar com meus defeitos. Me amparaste no meio da pista, entre dados e precipícios, e eu volto a eles. Lances de sorte, apostas perdidas: Deus não brinca em serviço! A nossa fortuna de todos os dias guardo no tempo perdido, sem passado, sem presente – na memória, ‘estojo da eternidade’.
Devolvo a nossa babel, nosso ruído, o pranto seco, a comida crua, as roupas do varal, as tempestades no copo de cachaça. Deus está escondido em algum lugar, nem ele brinca mais! Nem ele nos deseja boa sorte, sorte só se for eu, walt whitman!
Na placa está escrito ‘pode andar na grama, nas emboscadas do destino, nas fraudes das paixões, nas libélulas voadoras, nas pupilas da visão perdida’. Eterno não somos nós nem é o tempo, é a memória que perdi. Nem lembro do instante que caiu a folha, um fruto ou qualquer coisa próxima aos últimos instantes - esqueci tudo, meu caro! Porque paraísos e infernos ficam logo ali – é só escolher. Tabuleiros místicos estão aceitando encomendas para outros escambos da vida.
“A embriaguez lança véu sobre a vida real, extingue o conhecimento das pernas e das mágoas, permite largar o fardo do pensamento. Compreende-se então como grandes génios puderam servir-se dele e porquê o povo se lhe entrega.”
... e antes da última espuma branca lamber os pés uma nova onda surgi no horizonte.
Mar esmeralda, calamares dançantes, pontos luminosos no céu, pastilhas coloridas descolam retinas para as noites de sempre.
Bichinhos miúdos surgem das brechas na areia da praia, comem a morte, beliscam os dedos, caminham para o lado do passado enquanto isso, outras ondas espumam loucamente.
E outras lambem nomes de amores perdidos,
Mais outras desmancham desenhos matinais feitos com riscos da inocência, e da compreensão sobre o fim de todas as coisas.
Bóias pretas como miragem embarcam passantes mar a dentro
Bóias convidam à passeios onde não há botes salva-vidas -
mas à salvo de possíveis afogamentos.
Pulinhos agonizantes sob a sombra da água preguiçosa faz cócegas nos pés
Sonhos dormidos em alto mar carregados de maresia como 'efeito corrosivo'.
A sensação foi qualquer coisa parecida com uma experiência de 'nadar no ar'! Lembrei que, com Virgilio Piñera, senti algo como 'nadar no seco'. As duas possibilidades são instigantes, sem perigo de afogamento, mas com doses de possíveis sufocamentos ou soluços de engolir a seco pedacinhos de frases que, certamente, esquecerei daqui a alguns minutos; mas que deixam uma sensação boa para a eternidade. Enfim, vale um mergulho nestes livros, que fazem adormecer a alma!
É bem possível sentir os pés fora do chão e andar no ar logo nas primeiras frases de 'FUGADOS', do escritor cubano José Lezama Lima. E sentir calor com os 'Contos frios', do também cubano Virgilio Piñera. Um delicioso mergulho no seco, com direito a tentar pescar alguns peixinhos ou grandes emoções, como no fragmento 'NATAÇÃO', meu preferido!